Origem e Classificação Botânica
Uma importante característca morfológica dos cafeeiros é a placentação, que dá aos grãos um sulco ventral no sentido longitudinal.
A classificação botânica é: divisão das Fanerógamas, classe Angiosperma, subclasse Eudicotiledônea, ordem Rubiales, família das Rubiaceae, tribo Coffeeae, subtribo Coffeinae, gêneros Coffea e Psilanthus.
Uma grande diferença entre os dois gêneros são as flores. No gênero Coffea, as flores apresentam anteras e estigmas proeminentes e estilo longo. O gênero é composto por dois subgêneros: Coffea e Baracoffea (BRIDSON, 1987). As espécies pertencentes ao gênero Psilanthus têm estilo curto e flores com anteras e estigmas inclusos, não ultrapassando o tubo da corola. Existem também dois subgêneros: Psilanthus, com flores auxiliares e desenvolvimento monopodial e Afrocoffea, antiga seção Paracoffea (CHEVALIER, 1942), com flores terminais e desenvolvimento predominantemente simpodial (BRIDSON, 1987).
O subgênero Coffea agrupa 103 espécies (DAVIS et al., 2006), distribuidas em 3 seções (CHEVALIER, 1942), caracterizadas pela abrangência geográfica: Mascarocoffea, com espécies predominantemente em Madagascar e Ilhas Mascarenhas; Mozambicoffea, que reúne espécies do leste africano e Eucoffea (CHEVALIER, 1942; CROS, 1996), com espécies presentes nas regiôes central e oeste do continente africano.
A seção Eucoffeae é dividida em quatro subseções: Erytrocoffea e Melanocoffea, cujos frutos têm, respectivamente, coloração vermelha e preta, e Nanocoffea e Pachycoffea, que abrigam, respectivamente, espécies pequenas ou arbustivas e arbóreas (CHEVALIER, 1947). A seção Eucoffea reúne as mais importantes espécies de cafeeiros: C. arabica e C canephora e outras espécies, como C. liberica, C. dewevrei, C. klainii, C. congensis, C. racemosa, C. salvatrix, C. stenophylla, C. eugenioides, C. kapakata, C. humilis, C. sessiliflora, C. heterocalyx e C. anthonyi, entre outras.
Embora a diversidade seja bastante significativa, apenas C. arabica e C. canephora são cultivadas, representando praticamente a totalidade do café comercializado no mundo.
A espécie C. arabica é originária do sudoeste da Etiópia, sudeste do Sudão e norte do Quênia, em região restrita e marginal às demais espécies. A faixa de altitude correspondente encontra-se entre 1000 e 2000 metros. A dispersão se deu através do lêmen e toda a cafeicultura brasileira tem origem na introdução de apenas três plantas no País, em 1727.
Sua base genética é bastante estreita (CARVALHO, 1993) e todas as cultivares conhecidas da espécie são derivadas de duas formas botânicas: typica e Bourbon (ANTHONY et AL., 20010. Atualmente, a espécie tem ampla dispersão, sendo cultivada em regiões de altitudes mais elevadas e temperaturas mais amena, entre 18 e 21°C, nos continentes americano e asiático, além de algumas regiões da África.
C. arabica é um alotetraplóide com 2n = 4x = 44 cromossomos e autofértil com cerca de 10% de polinização cruzada (CARVALHO E MÔNACO, 1964). Vários estudos de natureza genética (CHARRIER & BERTHARD, 1985) e citológica (PINTO-MAGLIO & CRUZ, 1987), assim como estudos quimiotaxonômicos (LOPES, 1972), serológicos (CHARRIER & BERTHAUD, 1985) ou, mesmo, análises relacionadas à origem geográfica e compatibilidade em cruzamentos controlados (CARVALHO E MÔNACO, 1968), indicam que a espécies teve origem mais provável na hibridação de gametas não reduzidos de espécies diplóides do gênero. Estudos recentes conduzidos por Lashermes ET AL. (1999) corroboraram a teoria de que C. eugenioides e C. canephora ou uma forma ancestral desta espécie seriam os parentais desta espécie.
A espécie C. canephora é diplóide (2n = 2x = 22 cromossomos) e alógama, apresentando incompatibilidade do tipo gametofítica (CONAGIN & MENDES, 1961). É originária de uma ampla região quente, úmida e de baixa altitude, que se estende da Guiné ao congo, da costa oeste à região central do continente africano, predominando em regiões de baixa altitude, temperaturas mais elevada e precipitação entre 1500 e 2000 mm anuais. C. canephora é, atualmente, amplamente cultivada nos continentes africano, americano e asiático, em locais de baixa altitude e temperaturas mais elevadas, com média anula entre 22 e 26°C (MENDES ET AL., 2002).
A diversidade presente em C. canephora é bem mais ampla. Existem dois grupos bastante distintos, denominados Guineano e Congolês e estabelecidos em função de sua origem geográfica. O grupo Guineano é constituído por populações selvagens da Costa do Marfim e o grupo Congolês, por populações selvagens da República Centro-Africana, Camarões e Congo (BERTHARD, 1986; DUSSERT ET AL., 1999). Dados apresentados por Montagnon ET AL. (1992) indicam, no grupo Congolês, uma estrutura de subgrupos, denominados SG1 e SG2 pelos autores.
No Brasil, os cafés chamados conilon, da espécie C. canephora, são representantes do grupo Guineano e apresentam sementes e folhas menores e estreitas. A denominação conilon é uma derivação gramatical da variedade botânica Kouilou. Os cafeeiros da cultivar Robusta, representantes do grupo Congolês, apresentam frutos e sementes maiores, folhas largas, plantas vigorosas e produtivas, nas condições de Campinas, SP.
Em regiões de temperaturas mais elevadas e com abundante umidade, plantas da espécie C. canephora podem atingir até cinco metros de altura. Geralmente são multicaules, mesmo em cultivos comerciais com desbrotas freqüentes. É uma espécie altamente polimorfa, com extensa distribuição geográfica, exibindo grande capacidade adaptativa a variadas condições de ambiente.
As folhas das plantas são características, grandes, elípticas lanceoladas, bordos bem ondulados, nervuras muito salientes e de coloração verde bem menos intensa que as de C. arabica. As flores são brancas, em grande número por inflorescência e por axila foliar, com 5 a 8 lobos na corola, com igual número de estames também aderidos à sua base. O estilo é longo e o estima é bifurcado, sendo o pedicelo floral incluído no caulículo, cujos lobos se prolongam em apêndices foliares. Os frutos apresentam-se de forma variada entre as diferenças cultivares; nas cultivares comerciais, não em número de 30 a 60 por verticilo foliar, de coloração avermelhada quando maduros, superfície lisa, exocarpo fino, mesocarpo pouco aquoso, com pouca mucilagem e endocarpo delgado. As sementes são usualmente menores que as de C. arabica, de cor verde-clara, película prateada aderente e endosperma rico em cafeína e menos aromático, com grande quantidade de sólidos solúveis, freqüentemente apresentando bebida considerada neutra. É comum o seu emprego como lastro, em ligas com cafés de saber e aroma mais ativo, provenientes de cultivares de C. arabica. O produto comercial recebe a denominação genética de café robusta, sendo mundialmente conhecido, mesmo concorrendo com o café arábica em algumas regiões do mundo.
Os estudos com a espécie C. canephora tiveram início a partir de 1900, quando técnicos holandeses iniciaram o cultivo na Indonésia, em Java, identificando plantas resistentes à ferrugem, Hemileia vastatrix Berk et Br. Atualmente, encontra-se difundida em todo o mundo, especialmente em função da resistência à ferrugem, da população e do vigor vegetativo. É de grande importância econômica para países como Vietnã, Brasil, Indonésia, Costa do Marfim e Sri Lanka, entre outros.
No Brasil, é cultivada em maior escala nos Estados do Espírito Santo e Rondônia, além do sul da Bahia e da região do Rio Doce, em Minas Gerais. Além do grande consumo como café torrado e moído, o interesse comercial na espécie deve-se também ao elevado teor de sólidos solúveis, de particular interesse para a indústria de café solúvel e de cafeína, matéria-prima das indústrias alimentícias e farmacêuticas. O teor de cafeína é bastante variável entre as espécies de Coffea, sendo as plantas de C. canephora as mais ricas nesse alcalóide, nas quais o teor pode atingir até 4% do peso seco da semente. Em C. arabica, o teor médio de cafeína é da ordem de 1,2% apenas; o mutante Laurina apresenta em torno de 0,6% desse alcalóide e os mutante AC, cerca de 0,07% (SILVAROLLA et AL., 2004).
CARVALHO, C. H. S. Cultivares de Café: origem, característica e recomendações. Brasília: Embrapa Café, 2008. 334 p.